15 de janeiro de 2015

"Seja honesto, seja ético, tenha respeito, tenha fé..."





"...Pois é neste dia 15 de janeiro queria ter uma prosa cheia de coisas boas, mas isso dependeria de uma maneira de ver o mundo cor de rosa, deixo isso para os publicitários. Por outro do, quando me propus a prosear com você através da Rádio Vida Nova FM todas as semanas, o fiz pensando em ficar próximo de você, não com objetivos de fama, lucro ou sei lá o que... Pensava justamente em dar voz aos sentimentos de gente simples como eu, que nasci na roça e fui criado na rua do Pito. Gente que tem enfrentado tantos desgovernos pela vida, mas ainda consegue se orgulhar de coisas aparentemente desvalorizadas como honestidade, ética, fidelidade, educação e respeito. Também sou acometido, como vocÊ e muita gente, por sentimentos de revolta contra tudo e sou levado a me sentir um zero a esquerda, que nada vale a pena... Por isso recorro hoje a textos históricos e célebres. Começo com parte de um discurso de Rui Barbosa, em Sessão do Senado Federal no RJ, em 1914: (abre aspas ) “A injustiça, Senhores, desanima o trabalho, a honestidade, o bem; cresta em flor os espíritos dos moços, semeia no coração das gerações que vêm nascendo a semente da podridão, habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na fortuna, no acaso, na loteria da sorte, promove a desonestidade, promove a venalidade, promove a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas. De tanto ver triunfar as nulidades
, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”
( ...) Cem anos se passaram... e como diríamos em uma certa peça teatral do Movimento dos Sem Teatro, que apresentamos há cerca de 12 anos, “você dirá que as coisas mudaram? Mudaram coisa nenhuma, as coisas são as mesmas de ontem, no hoje” Algo de novo há sim, mas não o suficiente para nos fazer deixar de lado o sentimento de que como seres humanos, temos sido nada mais que zeros a esquerda...
Vamos agora para outro trecho de discurso, agora do senado já em Brasília:  ( abre aspas) “Pátria foi um palavra abominada, como democracia foi durante muito tempo. Eu tenho até um discurso sobre as palavras esquecidas. Sinto o Brasil num estado de calamidade, calamidade total, absoluta, todos os setores, e não temos uma outra saída se não uma representação política capaz de reorientar a vida deste país. É quase que algo milagroso, é como se eu tivesse falando coisas messiânicas, mas é assim mesmo que está vivendo hoje o brasileiro, não é de outro modo que ele está vivendo hoje, não. Se alguém ainda hoje vai para uma urna votar, vai, sobretudo, tocado deste sentimento messiânico, da existência de uma mudança que ele não concebe, como não dá para concretizar exatamente, não sabe ainda porque exatamente aquele voto vai ter alguma valia. Mas ele vai votar, o brasileiro vai votar. Vai definir a vida desse país no dia 15 de Novembro, de que maneira? Vamos descobrir. Com tanta corrupção, com tanta fraude, ainda assim vamos sobreviver. Essa é a minha esperança que o povo vote, e que procurem não apenas aqueles homens que lhe são chegados, mas aqueles que podem representar a nação. E a nação vai ser representada desde a Câmara dos Vereadores - é o vereador, o prefeito, a Assembleia Legislativa, é o governador, o deputado federal, é o senador...” ( )
Isso foi dito nos idos de 1982, dias antes de se despedir do senado federal por causa de uma doença, pelo senador Teotônio Vilela. Aposto que você chegou a pensar que o discurso era dos dias atuais e não de 33 anos atrás, quando os brasileiros nem podiam votar para escolher um presidente da república. E talvez tenha sido esta a principal mudança entre aquilo o que Teotônio Vilela podia sentia naquele momento e o que sentimos hoje. Já disse que não gosto de generalizar as coisas, nem sentir noites escuras chegando...
Por mais que tenha visto triunfar a desonra e a injustiça... por mais que presencie lambanças e uso dos poderes municipais para benefício próprio, como diria Rui Barbosa, penso como Teotônio Vilela, que ainda assim vamos sobreviver. E não tenho vergonha de ser honesto, nem de não compactuar com a ganância de quem faz tudo pelo poder. Meu coração de poeta, mesmo no meio de uma prosa insiste em dizer que sou feito de carne, osso e esperança. Não falo da esperança messiânica de que alguém virá nos salvar... Chapolins Colorados não existem, meu caro. Minha esperança é moldada todos os dias como se molda um ferro em brasa. Com insistentes marteladas diárias. Seja honesto, seja ético, tenha respeito, tenha fé, não se deixe levar pelas facilidades, seja ético, resista, não usufrua de nada alheio, seja honesto, respeite a coisa pública, seja honesto, não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você, seja ético, seja autêntico, insista, não desonre sua família, tenha fé, não se omita diante de uma injustiça, seja honesto, cumpra seus deveres de cidadão, seja ético, exija seus direitos, nunca pare de lutar, martele, martele...

Minha esperança não me vem de graça, como uma benesse às custas do erário, ou de passar os outros pra trás... nem de repente, como um prêmio da loteria da vida. Ela não se traduz em números, nem em riqueza ou acúmulo de bens. Ela é moldada assim no calor do fogo da realidade e na dor das pancadas diárias (do pagar impostos e não receber os serviços públicos adequados), na luta de minha família, dos meus vizinhos e da minha cidade inteira. Minha esperança é forjada justamente na dor e na tristeza, que pode durar toda a noite mas vem sempre com um novo amanhecer. Ela brota quando vejo entre milhares algum jovem triunfando sem nunca abandonar os bons ensinamentos que recebeu. Ela floresce em minha alma quando vejo jovens de 14 anos se negando a seguir posicionamentos da mídia, por mais massificados que sejam...  Isso não tem preço e nunca vai acabar. Mesmo que 500 mil estudantes tenham tirado zero na redação do ENEM, os 250 que tiveram nota máxima simbolizam minha esperança. Mesmo que momentaneamente os maus triunfem. Que as ruas estejam sujas e esburacadas a despeito das fontes luminosas. Mesmo que o hospital nem tenha material para atender os pacientes, a despeito de uma construção de farmácia central paralisada há anos.
Mesmo que nós, apesar de tanto calor e sol escaldante, não possamos ver as coisas claramente... Vou insistir, em procurar me livrar das viseiras que tentam me guiar para onde não é meu lugar. Só queria ter você, é, você aí mesmo, desse mesmo jeito, neste exato lugar em que você está, só queria ter você como companhia nessa empreitada de não desistir nunca e insistir sempre, martelando e construindo nossa esperança, seja lá em que circunstância for. Nem massa de manobra, nem gado, nem ovelhas num curral eleitoral. Não sejamos nada do os poderosos querem que a gente seja. Nós podemos muito, nós podemos mais. Esse tempo vai passar!


Parafraseando Gonzaguinha, há quem fale que a esperança da gente é um nada no mundo. É uma gota, é um tempo, que nem dá um segundo... Há quem fale que ela é um divino mistério profundo. É o sopro do criador, numa atitude repleta de amor... 
É! A esperança que temos mesmo sofrida, esmilinguida, e magricela como a graúna do Henfil... ela faz com que eu também prefira a pureza das respostas das crianças de que  a vida é bonita, é bonita e é bonita...
Até a próxima esperança, digo, próxima prosa! Aquele abraço!"

                                           Evandro Alvarenga
 Trecho da crônica Do programa "Dedo de Prosa" da Rádio Vida Nova /FM em 15/01/15 

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